domingo, 17 de outubro de 2010

comercial!!!!!!!

Naquele tempo havia uma empresa aqui em Santos, na Rua São Francisco, que se chamava Discopa - Distribuidora Comercial Paulista, e nós recebemos a visita de um gerente dessa empresa. Ele estava procurando uma pessoa para organizar o crédito e a cobrança e foram convidar um português que estava no banco há muitos anos, mas ele não quis e indicou o meu nome.

Cheguei para a entrevista e esse senhor da Discopa disse assim: "Olha, eu preciso disso, disso e disso, você faz?" Eu digo: "Eu faço." "Olha, mas eu preciso também que tenha na minha mesa todo dia a posição do que está disponível, carteira, tal, o senhor faz?" "Faço." "Eu quero saber o que tem disponível para descontar com os bancos, o senhor faz?" "Faço." "Quero saber o que está perdido, o que está inadimplente, o senhor faz?" "Faço." Tudo que ele perguntava eu dizia que fazia.

Aí ele terminou a entrevista: "Olha, tudo que eu te falei até agora o senhor diz que faz, mas se o senhor não fizer eu mando embora. O senhor faz mesmo?" E eu digo: "Faço." Aí fomos acertar o salário e ele me ofereceu menos do que eu esperava. Então foi a minha vez de falar: "Eu vou fazer o trabalho que o senhor está me pedindo, só que não aceito esse valor que o senhor quer me pagar".

O fim da história foi que eu entrei nessa empresa no dia 27 de fevereiro de 1951 e fiquei lá até 1963. Fui gerente comercial, fiz crédito, fiz cobrança, fiz propaganda, fiz parte financeira, fiz tudo lá.

Na Discopa, nós vendíamos automóveis e eletrodomésticos, e aquele tempo foi uma fase áurea de vendas. Naquela época, por exemplo, ninguém tinha geladeira elétrica, o que tinha era um armário de madeira, forrado com folha de zinco; em cima tinha uma portinha, embaixo umas prateleirinhas: era a geladeira de gelo. Tinha o caminhão do geleiro que passava todo dia: ele te vendia um pedaço e você punha o gelo no compartimento de cima; enrolava em jornal, em pano, para não derreter, e depois colocava os pratinhos com a comida no compartimento de baixo. Os fogões eram a carvão, tinha a querosene, era querosene marca Jacaré, e tinha também um gaseificado, que era mais evoluído.

Por outro lado, o início do eletrodoméstico foi penoso, porque as pessoas mostravam uma certa desconfiança em relação aos aparelhos. Na fase da máquina de costura, por exemplo, aconteceu um caso assim: nós tínhamos aquelas máquinas antigas, cabeçote com móvel de cinco gavetas, pedal embaixo, e nós, querendo inovar, importamos umas máquinas americanas. Uma máquina bonita, gabinete reto, o nome era New Home.

Lindona, viu? Pusemos a máquina na loja e nós tínhamos um vendedor, um senhor antigo, o seu Abreu, e nós perguntamos a ele: "Seu Abreu, o que o senhor achou da New Home? Ele olhou a máquina, olhou, olhou: "Isso não vende". Nós ficamos surpresos: "Mas como que não vende, seu Abreu? Uma máquina elétrica, moderna, bonita". Sabe o que aconteceu? Um encalhe total. Então havia muita resistência, as pessoas preferiam o tradicional.

Outra coisa eram as dificuldades técnicas. Eu me lembro do primeiro televisor que apareceu na loja. A Antárctica punha lá a imagem do guaraná e, à noite, sentavam-se ali de vinte a trinta pessoas para ver aquele guaranazinho parado, encantados de ver uma imagem que vinha de São Paulo. Cada tevê que você vendia, ia um cara com o equipamento completo, antena, cano, fios, isoladores e punha a antena. E isso para ver umas fagulhas, uma imagem ruim.

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